Os Supridores – José Falero | Impossível sair ileso após uma leitura como esta!

Começo a leitura e, se pa, parece que vou gostá, mano! Claro que vai, sangue bom! Sério, tu acha mesmo que um livro assim, cheio de linguagem coloquial é pra ser lido? Veio, sei não… Fico na dúvida… Mas que mundo é esse? Onde vive esse povo que fala assim, sofre assim, sobrevive assim, falando tão duro assim? Ah, descubro então que tudo se passa em favelas… Mas que nomes são esses? Vila Nova São Carlos, Vila Sapo, Vila Lupicínio Rodrigues, Lomba do Pinheiro? Nunca ouvi esses nomes…, Ah, claro! Não é São Paulo nem Rio de Janeiro, mas Rio Grande do Sul! Tá explicado. Mas pera aí, tem favelas lá? Sim, meu bruxo, tem e muitas! E tão iguais em sua essência como não poderiam deixar de ser… simples assim.

A história é muito boa, mostrando a dura vida de Pedro e Marques, moradores destas favelas, e que trabalham como supridores em um dos supermercados da rede Fênix, cuja função principal é suprir as prateleiras, garantindo que tudo esteja sempre cheio e organizado. Claro que eles tem outras funções, como descarregar caminhões, organizar o depósito e limpar o chão da loja, pois o gerente Geraldo não pode ver ninguém parado.

Pedro e Marques estão cansados de viver sem perspectivas de futuro, e enxergam na venda de maconha uma oportunidade de mudar de padrão de vida. Sim, resolvem então ser supridores, mas deste outro tipo de mercadoria, tão largamente usada por quase todos que os rodeiam em sua vilas, e sem interferir nos outros tipos de tráfico mais perigosos como o do pó e da pedra, já dominados por outros chefes locais, porque o que Pedro não quer é confusão…

Pedro é o cabeça, adquiriu em suas leituras a convicção de que o jeito em que eles, pobres mortais vivem, não é justo. Assim convence a princípio Marques, seu colega supridor no supermercado, a ser seu parceiro no negócio. E daí pra frente a coisa toda só se expande, outros entram no grupo e ninguém pode imaginar, ou melhor, até da para imaginar, o que vai acontecer.

Nada é imprevisível, sabemos onde essa história vai dar, mas a forma como José Falero, o autor, conduz e expõe os detalhes desta jornada, dos sem grana aos com muito dinheiro no bolso, é muito bem contada e detalhada. Daí vem a pergunta: como o autor conseguiu nós tele transportar tão bem assim neste mundo, ou submundo do crime? Simples, ele nasceu em Lomba do Pinheiro. Só mesmo assim para saber contar tão bem como tudo funciona, como é viver desta forma, se agarrando ao próximo dia sem nunca ter perspectiva de melhora.

Um livro que deveria ser lido por muita gente que ainda acha que conhece o país em que vivemos. Quando terminamos a leitura, fica um sentimento de que precisamos repensar o sistema, ter mais compaixão por aqueles tantos que não tiveram e nunca terão oportunidades como poucos. Como disse no título, não dá para sair ileso ao fim desta obra. Simples assim… Não dá!

Publicado por o.resenheiro

Engenheiro de formação que descobriu na leitura uma paixão. Muito mais do que prazer, ler desperta a busca pelo auto conhecimento, proporciona se colocar no lugar do outro, viajar para lugares nunca antes imaginados.

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