O Pintor debaixo do Lava-Loiças, Afonso Cruz | A saga de Jozef Sors…

… e «o problema da dispersão e a lei de Andronikos relativa à árvore de Dioscórides» *

Tudo começa na vida de Jozef Sors na casa em que vive sob as asas de Möller, o proprietário e patrão dos pais de Sors, o seu mordomo que não entende metáforas, e a sua engomadeira, que está sempre a sorrir.

Sors, o filho, passa por diversos momentos de sua vida, tendo sempre alguém a seu lado, seja o filho do patrão, seja o companheiro de guerra, ou seja o casal que o abriga em sua casa embaixo do lava louças.

“O escorrega ensina-nos que um pequeno, muito pequeno, momento de prazer exige que subamos escadas. O esforço para ser feliz é muito maior do que aquilo que desfrutamos. É isso que nos diz o escorrega. Não é por acaso que todos nós somos educados com eles.

Ele também não esquece de seu primeiro amor não correspondido, Františka, e de tantos outros dias marcantes de sua vida, como aquele em que seu pai se foi por não entender uma figura de linguagem, a tal da metáfora, interpretando-a erroneamente vinda da boca do amigo do patrão, o que o leva a matá-lo de ignorância.

“Sors tinha pintado, dentro dos «buracos», cenas da vida quotidiana, coisas banais (mas por vezes terríveis, pois as cenas banais que existem dentro das paredes são, muitas vezes, crimes). A arte serve para ver o interior das coisas, disse Sors. Atravessar as paredes e mostrar aquilo que não se vê, o que está escondido.

Sua mãe, não aceitando a morte do marido, continua a colocar sempre três pratos a mesa, para si, para Jozef Sors e para o não mais presente Sors, o pai. Até na cama mantém o lado do marido desocupado, onde deixa as vestes do mesmo esticadas, como se este ainda estivesse lá.

Sors perguntou pelos pacientes e o homem foi perentório: — Eram só judeus, era um hospício só para eles. Foram todos abatidos dentro do edifício. Nenhum chegou a sair. Ouvi gritos a noite toda e tiros e risos. Ao que parece, não faria sentido levá-los para um campo de concentração.

Um livro contado e montado de sequências que mostram a vida de Sors, que acaba por ora sendo refugiado e consegue ir aos Estados Unidos. De lá, volta em busca da mãe judia, onde havia deixado em um hospício sem se despedir quando da partida. Não a encontra mais, e tenta então retornar de onde veio, passando pela Europa e parando em Portugal, mais especificamente em Figueira da Foz, terra natal do autor, na casa de Dona Rosa e Dr. Costa, que escondem este pintor, Jozef Sors, debaixo do lava-loiças.

Uma leitura leve e com capítulos curtos, mas repleta de frases surpreendentes!

* Sobre esta frase, que aparece citada diversas vezes no texto, segue a explicação:

Concretamente, esta era uma questão que o preocupava e a que ele, mentalmente, chamava «o problema da dispersão e a lei de Andronikos relativa à árvore de Dioscórides», pois este filósofo debateu o tema e chegou a representá-lo matematicamente. Sors acreditava que qualquer pessoa, se evitasse a dispersão, poderia prolongar-se até lugares muito distantes, não só no tempo/espaço como também na alma. Sors evitava todos os luxos, tudo aquilo que ele determinava não ser necessário ao sustento do seu corpo (que ele chamava «tronco»). Assim, evitava comer em demasia ou comer muito pouco. Enquanto o excesso é uma dispersão (um «ramo», como chamava Sors), a carência pode levar à morte do tronco. Os excessos que Sors considerava mais perversos, que criavam mais ramos, eram a gula e a luxúria. Também considerava o ódio como uma forma de dispersão, visto que a pessoa não se concentrava no seu objetivo, não corria atrás do que desejava, para, em vez disso, se preocupar com a queda dos outros. Era como um corredor de fundo que certa vez vira numa competição regional. Perdera a prova porque começou a espancar furiosamente um dos competidores que lhe pisara o calcanhar numa curva mais difícil. Esqueceu-se de correr, pensou Sors, eis um grande exemplo de «o problema da dispersão e a lei de Andronikos relativa à árvore de Dioscórides».

Publicado por o.resenheiro

Engenheiro de formação que descobriu na leitura uma paixão. Muito mais do que prazer, ler desperta a busca pelo auto conhecimento, proporciona se colocar no lugar do outro, viajar para lugares nunca antes imaginados.

Deixe um comentário