
Mergulhar nessa trança e poder viver essas três histórias é mais uma dádiva da leitura. Consegui assim, mais uma vez, vivenciar ambientes diferentes, no caso, todos permeados por personalidades femininas fortes, resilientes, cada uma a seu modo, enfrentando revezes da vida de que todos somos sujeitos. A singeleza e sensibilidade da autora fica evidente em cada frase, em cada ação e reação enfrentada por essas mulheres.
Uma história se passa na Índia, outra em Palermo, na Itália, e uma terceira em Montreal, no Canadá. Pelo título da obra, fica evidente que em algum momento essas histórias iriam se cruzar, mas não dá para imaginar como. Mundos totalmente diferentes são retratados, fatos que chocam quando detalhados, como a vida dos Dalits na Índia.
“Na escola, Smita nunca pôs os pés. Aqui, em Badlapur, gente como ela não vai à escola. Smita é uma dalit. Uma intocável. Desses que Gandhi chamava de filhos de Deus.”
“Fora das castas, fora do sistema, fora de tudo. Uma espécie à parte, julgada impura demais para se misturar com as outras, uma ralé indigna da qual as pessoas cuidadosamente se afastam, como separar o joio do trigo. Como Smita, eles são milhões a viver fora das aldeias, da sociedade, na periferia da humanidade.”
Viver assim na pobreza, limpando latrinas com as mãos nuas e tendo ratos como refeição é, sim, algo que choca.
“Ninguém deve encostar a mão em excrementos humanos.” Dizem que o Mahatma declarou o status de intocável ilegal, contrário à constituição e aos direitos humanos, mas nada mudou desde então. A maioria dos dalits aceita seu destino sem reclamar.
Mas o trabalho duro de uma mulher, advogada, em um mundo ainda machista e hipócrita também incomoda. Assim é a vida de Sarah Cohen, que a cada dia tenta esconder de todos e de si mesma seu verdadeiro eu, colocando a máscara necessária para enfrentar tudo e todos ao despertar ás cinco da manhã para mais uma jornada de trabalho.
“Mãe de família, alta executiva, working-girl, it-girl, wonder woman, esses rótulos todos que as revistas femininas colam em mulheres como ela, e que são como fardos pesando nos seus ombros“
E por último vem a história de Giulia, a italiana que segue a profissão do pai em seu ateliê, não de pintura, mas de tratamento de cabelos para a confecção de perucas. Tudo parece perfeito quando sua vida toma um rumo inesperado, seguido pelo encontro de Kamal, um indiano de hábitos diferentes que vive na ilha de Sicília.
“Kamal fala de sua religião, de suas crenças, do Rehat Maryada, o código de conduta dos sikhs que lhes proíbe cortar o cabelo e a barba, e também beber, fumar, comer carne ou se entreter com jogos de azar.“
“Foi recebido na vasta comunidade sikh da ilha — a Itália é o segundo país da Europa a acolhê-los, ele esclarece, depois da Inglaterra.“
“Leva-o até o setor de literatura italiana. Hesita — os autores contemporâneos lhe parecem de difícil acesso. Acaba lhe aconselhando um romance de Salgari, que ela lia em criança: I figli del Aria, seu preferido. O homem pega o livro e agradece.“
Uma leitura de texto agradável, mas com uma trança que se forma com três histórias tocantes e marcantes, encerrando de forma majestosa ao se esclarecer enfim qual a ligação entre elas. Genial!
