
Mulher-a-dias, sim, em Bragança de Portugal é o título que recebem Maria da Graça e Quitéria. Amigas, vizinhas, limpam casas de seus patrões, é assim que ganham a vida. Além disso, atuam como carpideiras quando aparece algum cristão que não deseja ser tão cristão assim, delegando esta difícil tarefa de velar o caixão do morto no avançado da madrugada até que o sol desponte, enquanto todos repousam em seus lares.
Valter Hugo Mãe escreve como sempre, sem toda aquela pontuação que nos direciona mas que muitas vezes pra nada serve ao leitor atento. As perguntas fazem sentido mesmo sem o ponto de interrogação. De qualquer modo, achei este de mais fácil leitura do que outros com esta mesma particularidade de sua escrita.
Augusto é o marido de Maria da Graça, mas passa mais tempo fora de casa, embrenhado no mar pescando e fugindo da vida ao lado de sua esposa. Deixa assim Maria da Graça livre para limpar a casa do senhor Ferreira, por quem acaba se apaixonando após tantas investidas deste. Um romance escondido de todos, mas não de sua amiga Quitéria nem de Portugal, o cachorro que a tudo assiste no casarão do senhor Ferreira.
Enquanto isso Quitéria vive um romance diferente, não escondido mas de poucas falas, já que Andriy veio do leste para ganhar a vida em Portugal. Nascido em Korosten, na Ucrânia, deixa o velho pai Sacha e a mãe Ekaterina cheios de saudades. São eles a família Schevenko, o pai vivendo do medo de ser encontrado pelos soldados, que nunca aparecem, apenas seguem em sua mente perturbada. A mãe cuida do pai e sofre da ausência do filho distante.
Histórias de vidas inventadas, desses tipos que parecem conhecidos, e talvez por isso nos mostrem que somos todos iguais aqui, em Portugal, na Ucrânia ou outro lugar. Realidades diferentes mas que se igualam em muitos pontos. Todos temos sentimentos, laços familiares e procuramos alguma felicidade, independente da função que exercemos, sendo mulheres-a-dias, patrões ou homens vindos do leste.
