
Uma das coisas que o ser humano mais gosta é julgar. Um traço marcante deste livro é, enfim, o julgamento pelo que o personagem principal, João Victor, um publicitário já na casa dos quarenta, passa após ser desmascarado pela sua ex-mulher Teca, que descobre a senha do seu e-mail e vasculha mensagens inimagináveis trocadas entre o ex-marido e o melhor amigo.
Narrado pelo próprio réu, somos apresentados ao seu amigo Walter, com o qual João manteve uma amizade de longos anos. Walter, diferentemente de seu amigo heterossexual, é a figura que mostra o lado triste da história da AIDS no início dos anos 80, quando diversos de seus amigos homossexuais não sobrevivem a esta doença.
Entre os e-mails lidos e selecionados pela ex-mulher de João Victor, estão também aqueles que mostram o caso amoroso deste publicitário com a redatora-júnior, uma jovem pobre e indefesa de apenas vinte anos de idade. Sabemos apenas um lado da história? Sim, talvez, quem sabe? O fato é que os encontros românticos entre os dois são escancarados para nós leitores. Detalhes são contados para surgir sempre a dúvida sobre o certo e o errado.
Tudo isso é misturado com novos fatos e descobertas do passado não tão puro assim de Teca. Aliás, como em seu outro livro Solução de Dois Estados, Michel Laub gosta de mostrar apenas um lado da história durante uma parte da leitura, provavelmente para mostrar como somos tendenciosos enquanto não conhecemos a outra parte.
Como uma sombra a espreita, a possibilidade de o próprio narrador ter algum dia sido contaminado pela temível doença conhecida também como S.I.D.A, que hoje quase está esquecida em meio a outra pandemia que nos preocupa muito mais, fecha o conjunto da obra.
Enfim, somos constantemente convidados a pensar quem é vítima e quem é o vilão neste tribunal desta quinta-feira, quatro dias após o tenebroso domingo quando tudo vem a tona e desmorona o mundo de João!
