
…do vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2006
Enquanto a Madame bate com a sua bengala bem forte no chão, Recep sobe os dezenove degraus mais uma vez para atendê-la. Enquanto a Madame resmunga se perguntando onde estaria este pérfido anão, Recep balança seu corpo sobre suas pequenas pernas levando a bandeja com o almoço de sua senhora.
A história começa com apenas estes dois personagens principais, vivendo em uma grande casa velha em uma pequena cidade litorânea na Turquia, perto de Istambul. Porém esta monotonia acaba quando chegam os netos de Fatma. O mais velho, Faruk, é um historiador em seus trinta e poucos anos, que usa a bebida como refúgio assim como a usaram o seu pai, Doğan, e o seu avô, Selâhattin. O mais jovem, Metin, é imprudente e sofre sendo um pobre no meio dos amigos abastados. E por fim, Nilgün, um ano mais velha do que Metin, é uma moça bonita e com ideias comunistas.
Cada qual do seu jeito segue como o narrador de um dos capítulos, que se intercalam formando a história, sendo o título do capítulo iniciado sempre com o nome daquele que vai ser o da vez, como quando tudo começa com “Recep vai ao cinema”.

Tendo como período o início da década de 80, vemos um pouco da política em vigor neste país. De um lado os progressistas, os chamados comunistas, e de outro os nacionalistas. Hasan, sobrinho de Recep, filho de Ismail, sofre com seus pensamentos nervosos todo o tempo. Irritado com a cobrança eterna de seu pai, um mero vendedor de bilhetes de loteria, para que estude e trabalhe, acaba se envolvendo com alguns participantes rebeldes e anti comunistas. Em meio a pichações de muros, muitas confusões e desentendimentos acontecem. Somado a seus dezoito anos de imaturidade, uma paixão cresce por Nilgün, mas sua timidez e falta de jeito com as mulheres acaba por não terminar bem. Ambos brincaram quando crianças, mas eram outros tempos, e o reencontro entre o neto do filho bastardo e a bonita neta acaba trazendo mais dores e sofrimento para Hasan.
Vemos com tudo isso que a vida nem sempre é do jeito que gostaríamos que fosse. Parece injusta para aqueles que não conseguem aproveitar aquilo que tem, mas que são obrigados a aceitar tudo por Alá. Apenas o já falecido Selâhattin, que outrora fora um médico bem sucedido, tentava mostrar a todos os otomanos que o conhecimento poderia desmistificar esta devoção por Alá. Tentando até o fim de seus dias, escrevia uma grande enciclopédia, com verbetes que iriam deixar todos os turcos embasbacados com suas palavras, adquirindo um conhecimento jamais visto!
São muitas as lembranças de Madame, ou senhora, ou mesmo a vovó, que muitas vezes nos mostram como eram os idos tempos nesta casa do silêncio, mescladas com as realidades do presente contadas e vividas pelos outros personagens, desde o seu criado anão e filho bastardo do seu marido, passando pelos seus três netos até o neto do outro filho perneta e bastardo.
Uma história com diversas histórias formando uma só, como no fundo é este nosso mundo de pluralidade de ideias e culturas tão diversas. Mas o ser humano acaba sempre sendo um só, com seu medos e aflições, inveja e brutalidade. Aqui ou na Turquia, tanto faz.
