
Literatura é isso. Uma nova descoberta em cada livro. Desta vez, descobri como foi a vida de Marcelo Rubens Paiva antes do acidente, os detalhes do fatídico dia e todo o processo de aceitação de sua nova condição de vida após a trágica pulada em um lago raso, a qual acabou quebrando uma de suas vértebras da cervical.
O seu jeito de contar histórias é leve e agradável, considerando um assunto que pode causar um certo medo de se familiarizar, simplesmente por querermos distância daquilo que não nos pertence ou do que fugiríamos a qualquer preço.
Achei importantíssimo lermos a respeito de pessoas normais como Marcelo que, diga-se de passagem, popular como era aos vinte anos e órfão de pai assassinado durante a ditadura está longe de ser normal, tornaram-se deficientes, paraplégicas ou tetraplégicas.
Além de ser super informativo sobre este assunto que muitas vezes nem queremos ouvir a respeito, por medo, preconceito ou seja lá o que for, Marcelo consegue trazer todo aquele lado de sua juventude até os primeiros anos de faculdade, em uma linguagem coloquial deliciosa de se ler, e com muitas passagens bem calientes, diga-se de passagem…
Aliás, essa sua capacidade de se expor dessa forma, de contar exatamente tudo, tim-tim por tim-tim, cada detalhe de sua vida, é para poucos. Detalhes íntimos de suas relações afetivas e amorosas, de como levaram seu pai e sua mãe durante a ditadura, dos seus pensamentos em cada situação, dos seus gostos musicais, de quem gostava e de quem não gostava, tudo isso aparece na descrição de sua vida assim, mostrando que ele não estava nem aí para o que ou quem quer que seja. Dane-se o que acharem de mim, sou assim e pronto, sabe?
Fatos como o que ocorreram com sua família durante a ditadura dão aquela pitada boa de pimenta que pode deixar alguns vermelhos de raiva e outros nem tanto assim. Mostra um pouco do que foi essa barbaridade que muitos ainda pensam ser uma boa alternativa de vida. Difícil passar batido ou não refletir a respeito diante da realidade contada e vivida por Marcelo quando ainda era um menino e não estava entendendo nada do que estava acontecendo naquele momento.
Enfim, um livro interessantíssimo de se ler, onde podemos aprender mais sobre o que foi viver na década de 70 no Brasil, mais especificamente em São Paulo e Campinas, seja no campus da Unicamp, dentro da sala de UTI, ou no apartamento da família após sua fatídica pulada no lago onde não descobriu tesouro nenhum, mas uma nova vida que teria de encarar dali em diante…
Quando acabei a leitura deste livro, suas histórias ficaram martelando na minha cabeça por um algum tempo. Sinal de livro bom é aquele que deixa saudades, que não queremos que termine. Já estava acostumado com o jeitão despojado do Marcelo, sua escrita simples e direta, e mais do que tudo, sincera!
