O eterno marido, de Fiódor Dostoiévski | Muito mais do que um triângulo amoroso…

Quem ainda não se deu o prazer de ler Dostoiévski, talvez esse romance seja uma boa pedida. Uma leitura que flui com naturalidade, mas sem deixar de mostrar sua forma peculiar de escrita, com muita  ironia, irreverência, diálogos e reflexões. Eu gosto muito da forma como ele expõe os fluxos de pensamentos dos personagens, resultando em atitudes muitas vezes inusitadas, em conclusões duvidosas, deixando nós leitores sempre na expectativa do que pode acontecer.

Sendo assim, mesmo tendo o triângulo amoroso como tema principal do livro, a história é muito diferente do lugar comum por tudo o que acaba acontecendo desde o reencontro entre Pável Pávlovitch, o aparentemente tolo e “eterno marido”, e Veltchaninov, o seu eterno adversário, até o desfecho da trama.

Pávlovitch chega a São Petersburgo depois de nove anos desde que Veltchaninov havia se despedido do casal na cidade de T. Os rivais se esbarram pela cidade algumas vezes até que enfim o reencontro oficial ocorre de maneira inusitada no meio da madrugada. Veltchaninov começa então a se relacionar novamente com Pávlovitch, o qual acaba chamando de “eterno marido”.

As intenções desse retorno de Pávlovitch não ficam claras logo de início, o que torna a história cheia de surpresas que nos prendem e nos deixam na expectativa do desenrolar dos acontecimentos. Os diálogos entre os dois são intensos, com ironias, ódio e rancor. Outras vezes parecem grandes amigos. Nunca sabemos se eles vão partir para uma briga ou se vão se entender no final.

Teve um capítulo que ambos visitam uma família russa, os Zakhlievínin, onde os anfitriões os recebem com suas incontáveis filhas e alguns amigos em sua casa de campo que é impagável. Juntos, fazem brincadeiras infantis, do tipo esconde-esconde, acerte o provérbio, e por aí vai. Me lembrou algumas passagens de outros livros como Pais e Filhos de Ivan Turguêniev, quando os personagens principais também visitam uns amigos.

São passagens como essas que nos fazem sentir como se estivéssemos lá, dentro da história. Dostoiévski é único, estou cada vez mais fã deste autor que escreve e descreve tão habilmente os hábitos, jeitos e trejeitos do ser humano, com todos os seus problemas e características. É realmente notável!

O eterno marido

Publicado por o.resenheiro

Engenheiro de formação que descobriu na leitura uma paixão. Muito mais do que prazer, ler desperta a busca pelo auto conhecimento, proporciona se colocar no lugar do outro, viajar para lugares nunca antes imaginados.

Deixe um comentário