O veredicto/Na colônia penal, Franz Kafka | Duas histórias para se pensar…

Conforme o título do livro sugere, esta edição da Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone, traz não apenas uma, mas duas histórias curtas de Kafka. No primeiro conto, O veredicto, qual será a sentença final, a decisão a ser tomada pelo protagonista, Georg Bendemann? No segundo conto, Na colonia penal, ficamos chocados com a descrição de uma máquina extremamente engenhosa a ser utilizada na execução do “condenado”.

Em “O veredicto”, Georg Bendemann é um jovem comerciante russo. Trabalhando junto com o pai, Georg parece ser um filho reprimido, cheio de receios e conflitos. Sua mãe faleceu há dois anos, e agora ele se encontra em uma nova condição de vida, noivo da senhorita Frieda Brandenfeld, uma jovem de família bem situada. Sua insegurança com relação ao matrimônio me parece ser fruto da realidade do autor, já que este ficou noivo duas vezes de Felice Bauer, a qual deu origem ao nome da personagem com as mesmas iniciais F. B. e com a qual acabou não se casando, conforme descrito no posfácio pelo tradutor.

Georg escreve uma carta a um amigo em São Petersburgo sobre trivialidades de sua vida, mas preferindo omitir sua situação de noivo, como que não conseguindo admitir para si mesmo esta sua nova condição. Quando em conversa com o pai lhe conta sobre a carta para o amigo, o pai questiona se este realmente existe, o que me fez pensar se na verdade tudo o que Georg questiona e quer contar na verdade não é para si mesmo, independente deste amigo existir ou não. São conflitos existenciais, sua relação difícil com o pai, que parece atribuir ao filho muita das condições atuais, a morte da mãe, o possível abandono que ocorrerá após casamento. Tudo isso acaba culminando na decisão final do filho, que somente quem ler este conto saberá o veredicto…

Quanto ao segundo conto “Na Colônia Penal”, a história se passa em uma ilha, onde os coadjuvantes não são tratados pelos seus nomes, mas pelas suas atuais condições. Sendo assim, temos o explorador, o oficial, o soldado e o condenado. E também temos o comandante e o antigo comandante.

O oficial nada mais é do que um militar, ao mesmo tempo juiz, que idolatra o antigo comandante pela sua criação: uma máquina engenhosa e singular composta de três partes usada para executar a pena de morte de seus condenados. O explorador é um visitante na ilha, que a convite do atual comandante vai conhecer esta máquina e ver seu funcionamento para dar… um veredicto? Rsrs. Já o soldado é um mero subalterno do oficial, que ajuda no processo da execução do condenado.

Os detalhes da máquina e de seu funcionamento são aterradores. Constituída de três partes, a cama, o desenhador e o rastelo, é uma engenhoca tenebrosa! A cama é forrada com um tecido de algodão onde o condenado é colocado deitado de bruços, o desenhador é cheio de engrenagens meticulosamente ajustadas ao desenho a ser impresso na pele do condenado, e o rastelo, que oscila entre a cama e o desenhador, possui agulhas de vidros para facilitar a visão da impressão do desenho da sentença na pele do condenado… Tudo isso ao lado de um fosso, para onde sangue, água, e o próprio corpo serão descartados ao final do processo. Uma crueldade sem tamanho que me fez pensar qual seria o nível de perturbações e sofrimentos internos deste tão aclamado autor.

Depois de ter lido A Metamorfose, fiquei com vontade de conhecer um pouco mais de Kafka, e encontrei neste livro a oportunidade de ler mais duas de suas obras. Contos curtos que se podem ler rapidamente ou demoradamente, de acordo com o gosto do leitor. Deixo então aqui um pedacinho das minhas impressões destas duas ficções. Espero que tenham gostado!

O veredicto / Na colônia penal

Publicado por o.resenheiro

Engenheiro de formação que descobriu na leitura uma paixão. Muito mais do que prazer, ler desperta a busca pelo auto conhecimento, proporciona se colocar no lugar do outro, viajar para lugares nunca antes imaginados.

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