
Dostoiévski entendia alguma coisa sobre jogos? Pois é, não só entendia como tinha problemas com ele. Não sei qual foi o grau de seu vício pelo jogo, mas está claro aqui neste romance que ele entendia do assunto… Pelo menos em como esse vício pode deixar algumas pessoas cegas e sedentas por ganhar! E uma história com esse pano de fundo não podia se passar em outra cidade senão na fictícia Roletemburgo, que, como o próprio nome já sugere, era uma cidade com roletas e, portanto, Casinos. E não para por aí, além de Casinos e hotéis, este lugar turístico da Alemanha também era visitado por ser uma estância de águas. Em uma palavra, em um único lugar era possível se curar de problemas financeiros e cuidar de sua saúde!
E a ironia não está somente neste contexto, mas no jeito como a história toda é contada. O jovem professor Aleksei Ivánovitch chega em Roletemburgo e vai ao encontro dos “nossos”, ou melhor, dos seus, o general e aqueles que o rodeiam. Quando este jovem professor chega na cidade, ele percebe que algumas situações não estão muito claras. Cada um dos personagens vai sendo apresentado aos poucos, desordenadamente, mostrando que existem intenções obscuras por parte de cada um com relação a heranças e romances escondidos.
Dentre os personagens que vão aparecendo na história, se destacam a Mlle. Blanche, uma francesa ilustre acompanhada de sua pretensa mãe, a qual parece possuir uma fortuna colossal. Esta é uma espécie de parente do marquês Des Grieux, um francesinho insuportável na visão do professor (uma crítica aos costumes franceses idolatrados pelos russos?). Já a jovem Polina, enteada do general, é a paixão do professor, que faria qualquer coisa por ela, como se fosse seu escravo – “Se eu dissesse para o senhor: mate esse homem, o senhor mataria?” Hã? Bem, ainda entre os membros deste clã aparece o nobre inglês Mr. Astley, imensamente rico e que está hospedado no Hôtel d’Angleterre.
O general, apaixonado aos cinquenta e cinco anos, está falido. Tudo o que possui está hipotecado para o francês, a propriedade inteira… e tudo o que este espera é ter a possibilidade de usar a herança de sua tia para pagar suas dívidas.
“Se vovó não morrer, o francês fatalmente vai tomar posse de tudo o que está hipotecado. É fácil entender o que pode significar para ele, agora, um telegrama sobre a morte da tia!”
Paira no ar uma expectativa por todos os personagens pela morte próxima desta senhora, a tia do general e avó de Polina. Tinham estes recebido a notícia de que esta senhora estava muito doente e sua vida certamente estaria por um fio. Qual não é a surpresa de todos quando esta aparece, cheia de vida em sua cadeira de rodas e rodeada por seus criados, na cidade de Roletemburgo! É um momento hilário, sua frases são impagáveis, ela compreende tudo e não tem meias palavras. Uma figura muito bem caracterizada, como todos os personagens desta história. E como todo ser humano, ela também não consegue se render aos encantos da jogatina. Aposta horrores e perde muito dinheiro, como todos os outros.
“Eles ficam sentados com folhas de papel cheias de garranchos, anotam os números sorteados, calculam, estimam as possibilidades, avaliam e, no fim, apostam — perdem exatamente como nós, simples mortais que jogamos sem fazer contas.”
O professor acompanha a jogatina desta senhora e também faz os seus próprios jogos. As apostas são feitas com francos, luíses de ouro, fredericos de ouro, florins austríacos, táleres, florins italianos ou libras, em resumo, qualquer quantia que estivesse disponível e pudesse se transformar em muito mais!
“Tive a ideia estranha e maluca de que eu ia fatalmente ganhar, aqui, na mesa de jogo.”
“Por que está tão convencido assim? — Na verdade… eu não sei. Só sei que preciso ganhar, que essa também é a minha única saída. E talvez seja por isso mesmo que me parece que tenho fatalmente de ganhar.”
Uma história cheia de reviravoltas e personagens que vão aos poucos sendo desvendados pelo narrador Aleksei Ivánovitch. Para quem nunca leu Dostoiévski, tem curiosidade mas algum receio, este livro é uma boa opção. Leve e irônico, mostra bem como a linguagem deste autor é precisa e ao mesmo tempo diversa! Aproveitem e boa leitura!
