
A história inicialmente se passa em Portugal, no início do século XX, onde o protagonista divide seu precioso tempo entre almoços nos clubes da alta sociedade de Lisboa, óperas, teatros, bailes e concertos, além de apostas e jogos de cartas com amigos. Sócio principal da Companhia Insular de Navegação, empresa herdada do pai, dinheiro não lhe falta, e com seus trinta e sete anos de vida, solteiro, o que mais lhe apetece é gozar os prazeres da vida. Luís Bernardo Valença, o estereótipo do bon-vivant, é este personagem principal o qual nos é apresentado logo no início desta tão envolvente narrativa!
Como não poderia deixar de ser, tudo que é bom uma hora termina. E no caso de Luís, essa vida mansa e sem muito propósito acaba por ter um fim quando uma proposta desafiadora, impensável e sobretudo perturbadora lhe é apresentada após uma visita ao Palácio dos Duques de Bragança em Vila Viçosa, requisitada nada menos do que por D. Carlos, o então Rei de Portugal. Após a caçada matinal de Sua Majestade, seguida por um longo almoço e hospedagem nas instalações do Palácio, a fatura chega para Luís: um convite para ser governador da Província Ultramarina de São Tomé e Príncipe. O desafio: provar que não mais existiam atividades escravagistas nas ilhas, como sugeriria a Inglaterra, a qual era importadora do cacau produzido por estas e que poderia suspender essas importações caso essas atividades se confirmassem. Uma preocupação um tanto quanto suspeita para a época. O mesmo não seria feito por outros países ou até mesmo pelos ingleses?
A partir de então a vida de Luís Bernardo é transformada radicalmente. Tendo apenas dois meses para se preparar, o futuro governador das ilhas de São Tomé e Príncipe, localizadas na costa ocidental da África na altura da linha do Equador, o que explica o nome dado ao livro, se planeja para levar tudo aquilo que não existe neste fim de mundo para onde será levado e que deverá permanecer não menos do que três longos e exasperantes anos! Entre alguns dos motivos que o fizeram aceitar esta inimaginável proposta estavam a impossibilidade de uma resposta negativa a uma solicitação do Rei, o seu orgulho no cumprimento de tão nobre missão, e uma oportuna fuga ao compromisso com um rabo de saia, Matilde, uma mulher casada e com filhos que só poderia lhe causar problemas…
O navio saí de Portugal com escala em Angola, também colônia de Portugal, onde tem o primeiro contato com o que doravante viria a ser seu ambiente e vida política de então ao tratar com o atual governador daquela província. Seguindo então para a ilha de São Tomé, quando este chega neste longínquo mundo, não só de distância mas de características, Luís sente o que está por vir. Um calor dos trópicos, mosquitos, uma pequena cidade e povoações ao redor, roças de cacau administradas por brancos portugueses e cultivadas por uma quantidade muito maior de negros, também considerados portugueses, já que viviam no mesmo território, porém em condições muito questionáveis considerando-se se aquilo era ou não trabalho escravo.
Os roceiros e qualquer autoridade portuguesa residente na ilha que fossem questionados afirmavam que os negros, trazidos, ou melhor, importados de Angola para as ilhas de São Tomé e Príncipe, tinham tudo do que precisavam: alimento, alojamento, assistência médica e até salário! Como poderiam então estes serem considerados escravos? Porém outras questões ainda surtiam dúvidas, como “ser levado para trabalhar longe da sua terra e dos seus, sem que se pudesse presumir que essa era a sua verdadeira vontade, podia-se considerar um homem livre?” E quando terminasse o prazo de cinco anos da Lei de Repatriação de 1903, a qual estava próxima do fim em um ou dois anos? Teriam esses mesmos negros a liberdade de retornarem ao seu país de origem caso fosse de sua vontade, usando do fundo de repatriamento disposto para eles? Esses roceiros iriam permitir isso, considerando que o resultado monetário fabuloso de suas plantações de cacau e café precisavam e eram baseadas no trabalho desses “funcionários”?
A questão política e econômica é amplamente discutida durante a narrativa, voltando-se sempre ao mesmo ponto. Luís se vê em um pedaço de terra onde muito se deveria mudar, mas tentando se manter tudo do mesmo jeito e na mais perfeita ordem ao mesmo tempo, enfim, uma tarefa desde o início prevista por ele mesmo como sendo um tanto quanto impraticável. Diante deste dilema, algumas cartas e telegramas são trocados entre o novo governador de São Tomé e Príncipe, Luís Bernardo Valença, tanto com a realeza e com o ministro das colônias, como com seu melhor e único amigo João Forjaz, confidente e um dos responsáveis por persistir que o amigo aceitasse aquele enorme desafio.
Em meio a toda essa confusão, Luís ainda teria o trabalho de persuasão e convencimento de que não havia trabalho escravo para o cônsul inglês que seria enviado para as ilhas com a função de observar como eram feitos estes trabalhos e como eram tratados esses negros portugueses residentes e importados de Angola. Ao término de sua estadia em São Tomé, o cônsul enfim enviaria um relatório com sua perspectiva e conclusão a respeito do assunto da escravidão, o qual seria importantíssimo no processo decisório e de esclarecimento deste impasse entre Portugal e Inglaterra. O que Luís Bernardo não esperava era que este mesmo cônsul inglês, David Jameson, vindo das Índias e com um passado desconhecido, viesse para aquele fim de mundo acompanhado de sua belíssima esposa Ann, e que estes seriam durante um bom tempo os seus melhores companheiros na passagem do tempo naquele desterro. Amigos porém com funções antagônicas, algo que certamente não poderia terminar bem…
Se acham que contei muita coisa até aqui, sim, estão certos porém enganados. Muito mais acontecimentos são narrados neste romance de cunho histórico tão bem elaborado, como romances, traições, julgamentos, revoltas, descrições dos povoados e natureza da ilha, com sua exuberante e perigosa mata cheia de cobras negras, praias lindíssimas onde ninguém tomava banhos de mar, que aliás, foi uma das primeiras atitudes daquele novo governador que pisou na ilha, e que quando o fez, deixou desde o primeiro momento todos aqueles cidadãos e serviçais tão estupefatos e desconfiados como não poderia deixar de ser. Qual seria o objetivo afinal daquele português burguês naquelas ilhas longínquas, colônias de Portugal em pleno Atlântico, a oito mil quilómetros de Lisboa, onde só chegavam jornais, correio e notícias uma ou duas vezes por mês, terras esquecidas quando necessário e lembradas também quando necessário? Seria um aliado ou inimigo dos portugueses?
Bem, a resposta a esta pergunta está dentro do livro, e somente poderão responder aqueles que se aventurarem nesta obra magnífica escrita por Miguel Sousa Tavares! Leiam e me contem depois!
