a máquina de fazer espanhóis, por Valter Hugo Mãe | Uma história de muitos silvas portugueses…

Tinha muita curiosidade de ler este livro de Valter Hugo Mãe. Com um título destes, ficava imaginando qual seria a história desta vez. A criatividade e a forma peculiar de sua escrita é um atrativo e tanto para quem gosta de ler.

E sim, valeu a pena! É impressionante a capacidade de mostrar os sentimentos e pensamentos do ser humano, neste caso, de senhores já no final de uma vida, muitas vezes esquecidos ou abandonados por seus familiares e entes uma vez queridos que parecem não mais se importar e que ainda possuem o tempo a seu favor.

Quando o senhor Silva, já com seus mais de oitenta anos, perde sua esposa e companheira de cinquenta anos de convivência, e acaba sendo levado a contragosto por sua filha para uma casa de repouso, este encontra outros Silvas, cada um com sua história de vida.

Inicialmente recluso, Antônio Jorge da Silva aos poucos começa a se relacionar com o Silva da Europa, o senhor Pereira, o Anísio, o Esteves de quase cem anos, enquanto é cuidado pelo Américo e o doutor Bernardo. E para sua surpresa, acaba ali descobrindo amigos os quais não teve ao longo da vida, esta por sua vez dedicada com muito esmero ao ofício de barbeiro e ao convívio limitado com Laura e seus miúdos (filhos).

Sua filha Elisa as vezes o visita, mais por obrigação, para depois voltar a sua vida lá fora. Enquanto isso, os dias no asilo são passados em diálogos divertidos com o pequeno grupo de senhores, observando e rindo de si próprios e dos outros velhinhos e velhinhas, contabilizando o tempo que lhes resta, discutindo sobre religião, existência de vida após a morte, sobre o poeta Fernando Pessoa, e também sobre o que já se passou, a vida em uma Portugal dominada pelo governo de Antônio Salazar, e até sobre a vontade de serem espanhóis, como citado neste trecho que explica enfim o porquê do nome do livro:

“sabem que mais, portugal ainda é uma máquina de fazer espanhóis. é verdade, quem de nós, ao menos uma vez na vida, não lamentou já o facto de sermos independentes. quem, mais do que isso até, não desejou que a espanha nos reconquistasse, desta vez para sempre e para salários melhores. deixem-se de tretas, meus amigos, que o patriotismo só vos fica mal”

Um livro para pensarmos um pouco sobre a vida, sobre sentimentos que se ainda não tivemos, um dia poderemos ter, e aprender sempre, sobretudo a se ter mais compaixão pelo próximo. 🙂

Publicado por o.resenheiro

Engenheiro de formação que descobriu na leitura uma paixão. Muito mais do que prazer, ler desperta a busca pelo auto conhecimento, proporciona se colocar no lugar do outro, viajar para lugares nunca antes imaginados.

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