Antes de tudo gostaria apenas de comentar que um clássico como este merece ser lido em uma tradução direta do russo para o português, como a edição publicada pela Editora 34 e traduzida por Rubens Figueiredo. Fica aí a dica!

Um belo livro contado com muita ironia e humor! Almas Mortas começa apresentando o personagem principal, Pável Ivánovitch Tchítchikov (Pávlucha), um conselheiro colegiado, sexta classe dentre as catorze existentes na hierarquia civil da Rússia tsarista, de acordo com o estabelecido por Pedro, o grande. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, Tchítchikov sai em busca da aquisição de almas mortas, em resumo, servos camponeses russos ou mujiques de propriedade dos senhores de terra que já morreram porém ainda constam como vivos de acordo com o censo. O motivo desta compra não fica muito claro no início, mas todos acham isso muito estranho e suspeito, e a intenção desta compra de almas mortas somente vai ser revelada mais para o final da primeira parte.
Com capítulos recheados de descrições seguidos por diálogos cômicos e críticos, o livro mostra bem o comportamento da sociedade russa do século XIX, com personagens muito diferentes e divertidos, como a senhora de terra Koróbotchka, que o trata muito bem mas desconfia do motivo desta compra e depois fica achando que foi passada para trás, pensando que deve ter vendido esses servos por um preço muito abaixo do esperado e resolve investigar indo até a cidade, como Pliúchkin, o senhor de terra dono de mais de mil almas, que é avarento como ninguém, como Nozdriov com o qual ele quase entra em uma briga pela insistência em saber o verdadeiro motivo desta compra, como Manílov, um tanto quanto ingênuo e que aparentemente não faz nada da vida a não ser fumar seus cachimbos, como Sobakiévitch, grande e estabanado.
Em meio a tudo isso, bailes acontecem, almoços com muita comida são oferecidos, partidas de uíste, gorka e damas são jogadas, paisagens da cidade são descritas durante os passeios de caleches, troicas, coches, charretes, cabriolet e carruagens, conversas são travadas com o presidente da Câmara de Justiça, Ivan Grigórievitch, com o chefe de polícia, Aleksei Ivánovitch, com o governador, com a filha do govenador, enquanto os criados de Tchítchikov, o lacaio Petruchka e o cocheiro Selifan, são citados de quando em vez.
Nikolai Gógol tinha intenção de escrever mais duas partes desta obra, transformando-a em uma espécie de divina comédia russa. Infelizmente isso não foi possível e o autor, não conseguindo terminar sua obra a tempo em vida e conforme seria de sua satisfação, como todo gênio maluco, queimou o que tinha escrito, e somente rascunhos recuperados do incêndio aparecem na segunda parte do livro. Em contraste com os onze capítulos da primeira parte, somente cinco capítulos aparecem na segunda parte, sendo os quatro primeiros em ordem cronológica, mas com alguns trechos faltantes, e o último, o capítulo final, está mais a frente e fica difícil seguir a linha dos acontecimentos, uma pena, pois os rascunhos da segunda parte são muito bons e se tivéssemos a obra completa seria fantástico!
Esta segunda parte começa com um novo personagem, Andrei Ivánovitch Tientiétnikov, jovem feliz de trinta e três anos, e ainda por cima, solteiro. Da mesma forma como na primeira parte, outros personagens vão aparecendo, como o Semion Semiónovitch Khlobúiev, senhor de terras cuja herança de sua tia mal deram para pagar suas dívidas. Tchítchikov negocia com Khlobúiev a compra de suas terras e almas após conselho e empréstimo do novo conhecido Konstantin Fiódorovith Kostanjoglo, feroz trabalhador e dono de terras onde nada se perdia, tudo era reaproveitado e dava lucros, cunhado do desmotivado Platon Mikháilovitch Platónov, que aceitou seguir viagem como parceiro de Tchítchikov com o objetivo de se animar um pouco.
Nesta segunda parte, o passado de Tchítchikov é desvendado em detalhes e acabam por prendê-lo, o que parecia ser o fim deste memorável personagem, mas o velho Afanássi Vassílievitch Murázov incita Tchítchikov a refletir sobre seu passado e a se redimir, levando-o a tomar um novo rumo em sua vida dali pra frente enquanto Murázov tentaria dissuadir o príncipe, o governador-geral, a soltá-lo da prisão.
Um livro cheio de questionamentos sobre os costumes de um povo que parecem refletir o da humanidade em geral, o qual infelizmente parece não ter mudado quase nada de meados do século XIX até os dias atuais… Termino dizendo aos moldes do autor: Mas que belo livrinho… Em uma palavra, um livrão!
